Um ancião que embarcava na nave estacionada no pátio do museu levava consigo uma valise de negócios bem segura pela sua mão direita. A valise parecia pesada e com um cadeado de código de números. Ao se abaixar para remover a pena de um pombo do topo do seu sapato, o sujeito ouviu um anúncio: “derrame a tinta Eucatex em rios”. Logo após, ele saltitava como se algo o provocasse a dançar machatta e assim foi pela rampa ascendente. Instalou-se numa cadeira do interior da nave, pondo os pés para trás. Continuava bastante agitado. Clic, clic, abriu a valise. Nada saía do fundo da caixa.
Quando a nave sacolejou, ele trancou a valise e olhou para todos os lados, desesperando-se. O fecho da valise perdia o brilho dourado, ia se apagando enquanto um olor penetrava pelas narinas. Pombos chilreavam.
De um alto falante, o uivo de um lobo. “Faça boa viagem, meu bom senhor!”
As bochechas do idoso enrubesceram, um estalido do pescoço dava sinal de vida e culpa.

Saia à rua
Peça uma descrição do Sol
Com pressa
Avise que choverá
Antes de mais nada.

Desenho de Kátia Bandeira de Mello.

Ovídio entrou no vagão do metrô, a pele infestada de granulomas, ninguém que remediasse os círculos rosáceos nos braços, era um homem triste a partir daquele instante. Ao seu redor, muitos seres passageiros de fisionomias dignas da memória dele. Na verdade, os rostos todos se pareciam. Ou melhor, com o aprofundamento do foco de sua visão, Ovídio concluía que os rostos se assemelhavam, encolhendo  em um só, um rosto messiânico como o do profeta Kafka, embora mais afunilado e cartilaginoso.
Após cumprir o percurso da viagem de metrô e o pequeno trecho a pé entre a estação e a sua casa, Ovídio foi logo repousar a cabeça de lagosta no travesseiro. Sentiu que lhe haviam pinçado as mãos e os pés e que os glanulomas se esparramaram, perdendo a forma de anéis e colorindo-o vermelho em tom quente e fechado.
Um ou dois ventos uivavam inconstantes, empurrando o vidro da janela.
Já não sabia se a tristeza o abandonara, fazendo-o refém de bocejos inúteis e sono, muito sono.
As antenas, entretanto, revezavam-se acesas.

aranhas artríticas

Em busca de duas aranhas que brigam
Para depois fazerem as pazes
Dão-se presentes como pequenos insetos
Mastigáveis e luchadores mexicanos
Obedecem fileiras indianas
Há de acontecer
No porão da teia saia a seda a seda saia
Diziam as duas não e não
Esculturas de Giacometti
No fundo Artemísia mentiu
Por que sim e sim
Sem coração
Alimentar-se uivando,
Calar a pança
O salto do sapato descolado
Poderia achatar a euforia

localização

Aonde encontro os olhos mais solitários do asfalto
Neles haverá beleza sem rodeios
Um sorriso fúnebre para cada íris
A vida põe o pé de fora
Pela cálida atmosfera
Olhares impossíveis de ver
Crac crac racha o rosto de cristal
Noutro pé, o da letra
Cavando
Amor indolente no coração
Gerúndios transmissores
Versos reveladores
Há solitários escondidos
Nas palavras

Desenho de Kátia Bandeira de Mello.

Em trajes de baile, ela entra no vagão do metrô e pergunta ao próximo passageiro qual o destino final. Possui uma bolsa com objetos elétricos feitos de minerais africanos, tecnologia americana e fabricação chinesa. Em outras palavras, a foliã carrega o mundo nos pertences e lamuria-se pelo dia das cinzas que chega amanhã. Abre um frasco de pó quase prateado e respira fundo. Depois fecha o frasco e encosta a cabeça no vidro da janela do veículo que para de estação em estação, terra a terra.
Entre um cochilo e outro, a foliã procede de igual modo, sempre respirando um pouco mais o pó quase prateado do frasco. Alguns curiosos começam a encará-la com olhares suplicando alguma explicação para o comportamento fora do comum.
Ela não repara. Prepara-se para sair do trem na penúltima estação, de onde se tem a vista do gigantesco estádio de futebol, naquela noite, de luzes apagadas. A foliã sai andando pela plataforma, atordoada com o objeto vibrando, uma emergência, uma chamada longínqua.
No assento com forro de lã, jaz o frasco das cinzas com um sorriso fúnebre estampado na frente. 

conclusão

Um poeta ousado
De envergadura
Conclui o poema
Antes de terminá-lo
Descobriu a fórmula
Do tanto que o silêncio
Preenche, mutila, corta
Lançando um livro vazio
No rio das lagostas artríticas
Ferventes por Dalí


Kátia Bandeira de Mello é natural do Rio de Janeiro e radicada nos Estados Unidos, formou-se em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É advogada e mestre em Direito Internacional Privado pela Universidade de Londres e pela NYU School of Law. Foi professora de Direito na Fundação Getúlio Vargas. Integrou o corpo docente da Universidad Desconocida do Brooklyn sob a reitoria de Enrique Villa-Matas. Alum do “Disquiet International Program” em Lisboa através de estipêndio pela Fundação Luso-Americana, FLAD. Agraciada pelo programa da New York Foundation for the Arts, Artes Literárias. Publica em La Cause Littéraire, Colóquio – Fundação Calouste Gulbenkian, Curious Fiction, Words without Borders, São Paulo Review, Jornal Rascunho, Revista InComunidade e Revista Cenas (Centro Cultural Raimundo Carrero). Colunista e curadora da Philos – Revista de Literatura da União Latina. Seus livros publicados pela editora Confraria do Vento são: Colisões Bestiais (Particula)res (2015); Jogos (Ben)ditos e Folias (Mal)ditas (2017); Caderno de Artista (2022) e A Patafísica do Quadrado, um romance na rota das galochas (2022). Antes, publicou Forrageiras de Jade (2009) e Forasteiros (2013) pelo Projeto Dulcinéia Catadora. Kátia participou e organizou diversas antologias e coletâneas, dentre elas Nosotros, Editora Oito e Meio (2017) e Perdidas: histórias para crianças que não tem vez, Imã Editorial (2018). Em Portugal, teve seu livro Baleias, Bromélias e Outras Naturezas publicado pela Editora Gato Bravo em 2022 e possui um livro de ensaios poéticos no prelo pela editora Húmus, Lisboa. Recebeu o prêmio Escritora Sem Fronteiras no festival literário Flipoços em 2018. Em 2020, foi a escritora convidada para o IX Encontro de Língua Portuguesa organizado pela University of Massachussets/Boston e Instituto Camões. Escritora frequentemente convidada pela West Point Academy, Columbia University e Instituto Camões. Participou em diversas feiras e festivais internacionais como a FIL-Guadalajara, LitFestBergen, Folio/Óbidos, New York Poetry Festival, Lincoln Center.

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